Crónica de morte anunciada

O mundo aguarda notícias de Nelson Mandela. As piores.

Internado desde o dia 8 de Junho, o ex-presidente da África do Sul encontra-se em estado crítico. É a quinta vez que é internado, desde Dezembro, e muitos acreditam que é a última.

Meios de comunicação internacionais acamparam no exterior do hospital de Pretória, famintos de qualquer notícia sobre o estado de saúde de Mandela, reportando também sobre as centenas de sul-africanos que se têm deslocado lá para rezarem e homenagearem o seu líder.

Família de Mandela junto ao hospital de Pretória

Família de Mandela junto ao hospital de Pretória, seguida pelos média

O apetite voraz dos gulosos média é um desrespeito para com Nelson Mandela, debilitado aos 94 anos de uma vida nobre e de sofrimento. Tendo dedicado a sua vida à luta por um país mais justo e igualitário entre negros e brancos, “Madiba”, como é carinhosamente chamado, merece respeito, serenidade e privacidade, neste momento de sofrimento.

No entanto, tal como disse a filha mais velha do primeiro chefe de Estado negro da África do Sul, Makaziwe Mandela, os média parecem “abutres” à espera da morte. Aguardam ansiosamente o anúncio do fim para lançar as manchetes, há muito preparadas, e para lançar as compilações arquivadas sobre a vida de Mandela.

Assistimos à crónica de uma morte anunciada, sem o mínimo respeito pela privacidade de “Madiba”, ícone da África do Sul e do continente, e da sua família.

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Nelson Mandela, o primeiro Presidente negro da África do Sul

As próprias autoridades sul-africanas contribuem os abusos absurdos a que assistimos diariamente. Sabe-se que preparam as cerimónias protocolares, fazem os últimos ajustes de agenda e nas infraestruturas, premeditando, com toda a pompa e circunstância, a despedida do homem que lutou por uma nação “arco-íris”.

No entanto, muitos podres vêm mesmo do círculo interno de Mandela. Circula a informação de que um neto de Mandela, que dirige uma estação de televisão, tem há anos a exclusividade dos direitos de transmissão do funeral. E duas filhas do ex-presidente da África do Sul travam na justiça uma batalha para conseguirem o controle de uma parte do património do pai que, alegadamente, não as queria como gestoras dos seus fundos.

Nelson Mandela tem padecido de problemas respiratórios, em grande parte devido à tuberculose que contraiu durante os mais de 27 anos em que teve preso. Mandela destacou-se na luta heróica contra o regime de segregação racial, apartheid, que vigorou na África do Sul entre 1948 e 1994. Foi o primeiro Presidente negro da África do Sul, entre 1994 e 1999. O “ideal de uma sociedade livre e democrática na qual as pessoas vivam juntas em harmonia e com oportunidades iguais”, para brancos e negros, valeu a Nelson Mandela o Prémio Nobel da Paz, em 1993, e, para sempre, o reconhecimento e o carinho do mundo.