De armas e bagagens para Hamburgo

Cheguei à Alemanha com uma mala de porão de 23 kg e uma bagagem de mão. A minha vida empacotada, em Janeiro de 2011, para um estágio de seis meses.

Quando me mudei para Hamburgo, a 30 de setembro último, não havia afinal mala onde coubesse o que tinha acumulado durante os últimos três anos em Bonn. Eu, que não me tenho por pessoa consumista, não queria acreditar como a carrinha estava carregada na hora de partir. Os seis meses de estágio passaram afinal a mais de três anos de trabalho em Bonn, na DW, e a uma multiplicação dentro dos armários e gavetas da casa!

Mudança

Apesar de ter deixado tudo encaixotado previamente, a manhã de dia 30 de setembro voou e carregar a carrinha alugada levou mais tempo do que esperava: bicicletas a um canto, caixa atrás de caixa, mochila, sacos… Seguiram-se mais de 400 km em direção a norte com o Gilberto ao volante – porque eu não me atreveria a tal empreitada! Quando chegámos a Hamburgo já anoitecia, começava a chuviscar e, para piorar, o elevador estava avariado! Era preciso pegar em tudo, mais uma vez, e subir até ao quarto andar. E afinal como conseguir arrumar a tralha toda num quarto de 8.5 metros quadrados?

Trazer as caixas todas de uma vez era impossível – simplesmente não cabíamos nós e as caixas ao mesmo tempo! Teve de ser aos poucos, um par de caixas numa rodada, limpar e arrumar como era possível, e voltar a carregar… parecia que nunca mais acabava e já sentia câimbras nos braços! Depois de muito sobe e desce, afinal acabou por caber tudo arrumadinho! Estávamos exaustos!

Já tarde, finalmente o descanso. Mas nem por isso me sentia menos relaxada… na manhã seguinte começava o primeiro dia de uma nova etapa – afinal o motivo que me trouxe para Hamburgo!

Histórias de Bonn… agora a partir de Hamburgo

Durante mais de um ano, eu própria não consegui voltar a visitar este espaço. Ao longo deste tempo, senti sempre um aperto e um peso de consciência ao pensar que tinha deixado em suspenso, quase de repente e sem explicação, as palavras que preenchem este meu caderno. A falta de tempo, de vontade, de ideias deixou este espaço, talvez por demasiado tempo, vazio.

Entretanto começa uma nova etapa e, com ela, surgirão certamente novas histórias para voltar a partilhar… a partir de Hamburgo. Até já!

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Sol e cheias na Alemanha

Rio Reno, Bona

As águas do Reno já baixaram, aquecidas pelo sol que despertou na Alemanha Ocidental. Quem chega a Bona entra em clima de Verão, com as temperaturas a ultrapassarem os 20 graus, durante dias consecutivos sem nuvens. Os parques verdes conquistam os habituais adeptos do sol e são, por esta altura, as praias, as esplanadas, as mesas de pic-nic e dos churrascos. Pelo que, quando se vêem as imagens das inundações, no leste, parece até que se está a falar de outro país. O contraste entre o leste e o oeste da Alemanha parece pois, por esta altura, marcado pelo nível das águas.

As fortes chuvas que se fizeram sentir, há dias atrás, elevaram o caudal dos rios, em particular do Danúbio e do Elba. As cheias causaram mais de uma dezena de mortes na Alemanha, República Checa, Áustria e Eslovénia, além de grandes estragos materiais.

Se por um lado, o nível das águas volta à normalidade na região leste, em particular na Baviera e Saxónia, por outro a preocupação mantém-se noutras zonas onde o Elba continua volumoso. Por exemplo, em Magdeburgo, no estado da Saxónia-Anhalt (no centro-leste),as águas atingiram já o nível das cheias de há 11 anos. Por cá, o Reno galgou as margens mas, em poucos dias, voltou ao leito.

A chanceler alemã, Angela Merkel, já disponibilizou mais de 100 milhões de euros para ajudar as vítimas, nas regiões mais afectadas pelas cheias. E os bombeiros de Bona têm ajudado na região de Magdeburgo, para onde levaram 35 mil sacos de areia para tentar deter as águas.

Chegou o Flohmarkt

Flohmarkt em Bona

Flohmarkt em Bona

Com a chegada da Primavera começou também a época do “Flohmarkt”, o mercado das pulgas, a feira da ladra ou mercado em segunda mão, como se queira chamar. Sendo uma tradição bastante popular, na Alemanha, o primeiro “Flohmarkt” do ano, após a longa pausa de Inverno, é bastante aguardado! Com o sol a convidar, centenas de pessoas percorriam já desde as nove horas da manhã, de sábado (20.04), as ruelas do Rheinaue, o parque verde da cidade de Bona, de olhos postos nas centenas de banquinhas.

Quem chega vem apetrechado, com o carrinho de compras (a atrancar quem passa!) ou mochila para poder carregar as pechinchas. No “Flohmarkt” pode encontrar-se praticamente de tudo! Vestuário, calçado, bijuteria, mobília, loiça, utensílios de cozinha, livros, discos vinil, CD’s, DVD’s, máquinas fotográficas e de escrever antigas, todo o tipo de brinquedos…! Normalmente, as peças estão bom estado, algumas parecem mesmo novas outras, contudo, parecem pálidas e de ar cansado e outras parecem ressuscitar os anos 80. São vendidas, regra geral, a preços bem apelativos, por exemplo, blusas a dois euros ou casacos a sete. Pelo que, poucas horas após do início da feira, começa a ver-se pessoas carregadinhas com as “novas” aquisições.

Flohmarkt em Bona

Flohmarkt em Bona

Roupas e brinquedos de crianças destacam-se em muitas bancas. Talvez porque a roupa de criança dura pouco tempo, com a pequenada a crescer rápido, as mães tentam vendê-la, libertando a Primavera nos armários entupidos de Inverno.

Mas é também curioso encontrar-se muitas crianças e adolescentes a venderem os seus brinquedos antigos. Como já não os usam, alugam um espaço no “Flohmarkt” para, assim, arrumarem a brincadeira velha e juntar algum dinheiro para, talvez, comprar nova!

No entanto, há também algumas coisas um pouco ridículas de se vender em segunda mão… No ranking das peças mais insólitas (de serem compradas usadas) conta-se por exemplo, roupa interior de homem e mulher, pinças, bonecas de porcelana ou raposas embalsamadas!

O sol pintou um Rheinaue preenchido, um formigueiro humano carregando velharia, levando para casa coisas já novas e reutilizáveis. Em Bona, o “Flohmarkt” acontece no terceiro sábado de cada mês, entre Abril e Outubro.

Mobília e vestuário pendurado na Primavera de Bona

Mobília e vestuário pendurado na Primavera de Bona

Inverno

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Ontem fui vezes sem conta à janela da quarto espreitar, sorrindo ao algodão frio que caía sem parar. Mas não era suficiente. Tive de sair, inventar uma ida ao supermercado, para sentir os persistentes floquinhos gelarem-me a cara. Um frio severo mas confortado pelo manto branco que se estendia. Nunca tinha visto nevar assim, de um céu coberto, rosado pelo sol que se deitava lá bem longe, depois daquelas espessas nuvens.

Como para mostrar o que tinha aprontado de véspera, o céu abriu-se e o sol brilhou, hoje, mostrando a face de um Inverno que só conhecia dos postais. Os troncos das árvores nus carregados de neve, os jardins vestidos de uma capa branca, uma luz mais clara e os trenós compõem o cenário da estação que, agora sim, consegue ludibriar o frio.

Manifestação “light”

Com a Europa encolhida pela crise soberana, cidadãos gregos, principalmente, mas também espanhóis e portugueses esticam até onde podem a barreira contra as medidas de austeridade que, contudo, têm de ser implementadas.
Por isso, já se conhecem de cor as imagens de manifestantes revoltosos na Praça Sintagma, desafiando o cordão policial de delimita o Parlamento grego, as palavras de ordem dos milhares de insistem em não arredar o pé das Portas del Sol e, mais recentemente, começam a tornar-se mais familiares os protestos junto à Assembleia da República assim como em várias cidades portuguesas. Com mais ou menos fúria, as manifestações são, de uma maneira geral, uma posição hostil, de descontentamento, com palavras de ordem mais ou menos agressivas.

Münster Platz

Talvez por isso, a manifestação deste fim-de-semana, em Bona, tenha sido “sui generis”, “light”, no mínimo. Não quero com isto dizer que partidarizo de protestos violentos, longe disso! No entanto de manifestação, como normalmente a palavra é entendida, pouco tinha. Tratava-se de uma concentração de dezenas de colectividades desportivas de Bona para apelar a um maior investimento da autarquia no desporto.

Mas não fossem os cartazes empoleirados, não parecia mais do que um convívio de desportistas. No palco os “apresentadores” puxavam pelo ânimo do público, como se fosse o “aquecimento” para um concerto prestes a começar; entre uma e outra reivindicação, repetidas pelos atletas dos clubes, ouviam-se as músicas típicas do Carnaval desta região ou as que lideram o top das mais ouvidas! Talvez a alegada falta de investimento não seja demasiado problemática por estas bandas, a ponto de se fazerem grandes exigências e de se endurecerem as palavras de ordem; ou talvez tivesse sido a única forma de apelar e manter os “manifestantes” num cinzento dia de chuva. Ou talvez ainda seja simplesmente uma manifestação alemã, como acontece com quase tudo, com organização.

Palco de Beethoven

Sendo o berço de um incontornável nome da música, Ludwig van Beethoven, a cidade de Bona carrega consigo a missão de eternizar a sua música ao longo de gerações. Missão que está, por agora, no seu apogeu.

Toda a cidade é um palco. Respira-se e escuta-se Beethoven, por altura em que arranca mais uma edição do Beethovenfest. A cidade comemora o músico alemão, nascido em Bona, em Dezembro de 1770, no seio de uma família de músicos. E por isso, as várias actividades têm como ponto comum a vida e obra de Beethoven, que todavia desenvolveu a sua carreira principalmente em Viena.

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Organizado anualmente, pela época da entrada do Outono, o Festival de Beethoven traz à cidade as melhores orquestras internacionais, solistas e jovens músicos promissores. Com 66 concertos, ouve-se tocar, cantar em qualquer canto da cidade, de 7 de Setembro até 7 de Outubro. Há ainda, para quem quiser, mais de 70 outros eventos, entre exposições, workshps, exibição de filmes, etc.

O primeiro Beethovenfest remonta a 1845, com um festival de três dias para assinalar o 75º aniversário do nascimento do músico. Mas é desde 1999 que o festival existe no seu actual formato, realizado anualmente, durante quatro semanas, quando as folhas começam a amarelecer e a cair.

O orçamento deste do Festival de Beethoven, deste ano, é de 5,1milhões de euros, o que por si demonstra a sua importância para a cidade.