Encontro mundial para os média


De céu limpo e sol arrebatador a escalar os 30 graus, Bona veste as roupas mais leves e calça os chinelos, chegou o Verão. A descrição que se segue, já a conhece: pic-nics nos jardins verdes lotados de pessoas a apanhar sol, incontáveis ciclistas nas ruas, cerveja fresca no “Biergarten”… sempre que o sol aparece é assim, é de aproveitar até à última gota, antes que a chuva volte a refrescar os ânimos.

Bona é por esta altura uma cidade ainda mais movimentada. Não só pelo Verão que chama as pessoas à rua, mas também porque decorre mais uma edição do Global Media Forum. Centenas de pessoas, do Bahrein à China e ao Paquistão, por exemplo, ligadas ao jornalismo e à comunicação social, participam no evento de três dias (de 17 a 19 de Junho) que este ano tem como tema “O Futuro do Crescimento – Valores Económicos e os Media”.

Avram Noam Chomsky foi o grande convidado desta edição. O linguista norte-americano, considerado um dos principais intelectuais da actualidade, era aguardado com grande expectativa. Chomsky é referido em diversos livros, o seu pensamento merece reflexão e as suas obras são leitura obrigatória nos cursos universitários de jornalismo e comunicação. Ainda me lembro dos volumes de Chomsky que tive de ler, pelo que não poderia perder a oportunidade de ver e ouvir o pensador, hoje com 85 anos.

Entre os seus estudos, Noam Chomsky debruçou-se sobre o papel dos meios de comunicação no sistema capitalista, considerando que, muitas vezes, são utilizados como ferramentas de alienação, de domínio de uma elite minoritária sobre a maioria.

Noam Chomsky em Bona

O intelectual tem sido também um forte crítico da governação norte-americana, em particular da política externa do seu país, assim como do poder das grandes companhias. Chomsky apoiou inclusive o movimento “Occupy” ou Ocupação, um movimento internacional de protesto contra as desigualdades económicas e sociais. Em 2011 e 2012, milhares de pessoas ocuparam mais de 95 cidades em 82 países, mal-dizendo o poder das grandes empresas.

Perante uma sala cheia, em Bona, Noam Chomsky voltou a criticar as políticas norte-americanas, apontando que os média publicam grandes chavões como “a guerra contra o terrorismo” ou o “problema do programa nuclear iraniano”, estabelecendo ao mundo como única a voz dos Estados Unidos.

Segundo Chomsky, cerca de 70% da população norte-americana não tem qualquer influência sobre as políticas nacionais. O que questiona o termo democracia. Será uma que estamos a falar de uma verdadeira democracia ou será esta a democracia que queremos em que a maioria das pessoas não tem influência sobre o que as afecta diariamente?

O Global Media Forum é pois palco de questões do mundo dos média. É possível ouvir, na mesma sala, jornalistas e editores dos quatro cantos do mundo, como hoje tive a oportunidade de ouvir profissionais das Filipinas, Nicarágua, Ucrânia, Líbano e Paquistão. Em discursos com experiências bem pessoais contam como os grandes monopólios económicos desvirtuam a “verdade” dos média, como um pequeno núcleo de famílias de elite encabeçam esses mesmos monopólios.

Lembram que é necessário haver crescimento económico para haver liberdade de expressão, mas um factor não leva ao outro, basta pensar na China, por exemplo. Pessoas experientes e activas partilham as suas vivências, expondo como se contornam as dificuldades culturais, religiosas, económicas para tentar “contar a verdade sobre os assuntos importantes”, como disse Noam Chomsky no ponto final do seu discurso.

Sol e cheias na Alemanha

Rio Reno, Bona

As águas do Reno já baixaram, aquecidas pelo sol que despertou na Alemanha Ocidental. Quem chega a Bona entra em clima de Verão, com as temperaturas a ultrapassarem os 20 graus, durante dias consecutivos sem nuvens. Os parques verdes conquistam os habituais adeptos do sol e são, por esta altura, as praias, as esplanadas, as mesas de pic-nic e dos churrascos. Pelo que, quando se vêem as imagens das inundações, no leste, parece até que se está a falar de outro país. O contraste entre o leste e o oeste da Alemanha parece pois, por esta altura, marcado pelo nível das águas.

As fortes chuvas que se fizeram sentir, há dias atrás, elevaram o caudal dos rios, em particular do Danúbio e do Elba. As cheias causaram mais de uma dezena de mortes na Alemanha, República Checa, Áustria e Eslovénia, além de grandes estragos materiais.

Se por um lado, o nível das águas volta à normalidade na região leste, em particular na Baviera e Saxónia, por outro a preocupação mantém-se noutras zonas onde o Elba continua volumoso. Por exemplo, em Magdeburgo, no estado da Saxónia-Anhalt (no centro-leste),as águas atingiram já o nível das cheias de há 11 anos. Por cá, o Reno galgou as margens mas, em poucos dias, voltou ao leito.

A chanceler alemã, Angela Merkel, já disponibilizou mais de 100 milhões de euros para ajudar as vítimas, nas regiões mais afectadas pelas cheias. E os bombeiros de Bona têm ajudado na região de Magdeburgo, para onde levaram 35 mil sacos de areia para tentar deter as águas.

Aulas de alemão e do mundo

Mongólia, Rússia, Congo, Brasil ou Estados Unidos, por exemplo. De todos as agulhas da rosa-dos-ventos convergem para a Alemanha estradas largas de cores tão diversas quanto as culturas que transportam.

Antes de ter chegado à Alemanha, estava longe de imaginar que este é um país tão diverso, onde se pode encontrar uma miscelânea tão rica dos povos do mundo. Uma vez na Alemanha, muitos estrangeiros, recém-chegados, optam por frequentar as aulas de alemão nas várias escolas da Volkshochschule, que traduzindo à letra são “escolas superiores do povo”, escolas públicas onde se destaca o ensino de alemão para estrangeiros mas onde se podem aprender várias outras línguas.

Naquelas aulas cruzam-se diversos rostos, uns claros como a cal, outros de olhos em bico ou com cabelo em carapinha. As salas de aula são assim livros abertos da cultura do mundo, viagens e postais de povos distantes.

Encontramos todo o tipo de pessoas, jovens qualificados que procuram oportunidades de trabalho que o seu país não oferece, jovens que querem frequentar uma universidade alemã, “Au-Pair Mädchen” ou “baby-sitters”.

Para profissionais experientes que ocupam altos cargos, a Alemanha é, muitas vezes, encarada como um ponto de passagem. Norte-americanos, australianos, ingleses, portugueses ou indonésios, por exemplo, trabalham para as gigantes DHL, Deutsche Post, Deutsche Telekom, Organização das Nações Unidas, entre outras empresas e organizações. Matriculam os filhos nas escolas internacionais. E a esposa (ou o marido que abdica da profissão para poder acompanhar o cônjuge nessas andanças) é que se matricula para aprender alemão, estabelecendo assim a ponte com a cultura local.

hand-world

Ao lado de profissionais experientes cruzam-se também, na Alemanha, jovens qualificados que procuram uma oportunidade de trabalho, uma brecha que não encontram nos seus países de origem. Por exemplo, um engenheiro mecânico espanhol, uma profissional da área de marketing da Lituânia, uma dentista indiana, uma engenheira do ambiente iraniana ou enfermeiras eslovenas, sentam-se lado a lado a aprender alemão.

Aprendem, durante meses, com dedicação para depois se poderem lançar num mercado de trabalho novo e exigente. Tal como estes, muitas outras pessoas, sem estudos superiores, arregaçam as mangas. Refiro-me por exemplo, à colega vietnamita ou italiana, das aulas de alemão, que vêm para cá trabalhar num restaurante ou café. E apesar de assimilarem a língua, as diferenças culturais criam, por vezes, alguns obstáculos…

Como quando a colega vietnamita regressou à Alemanha, recentemente, um pouco chateada, após as férias no seu país. Foi barrada à entrada por trazer do Vietname uma pulseira de marfim verdadeiro. Ao explicar a sua indignação (pois ficou sem pulseira e com uma multa para pagar), a professora arrepiou-se, boquiaberta com o facto de haver pessoas no mundo capazes de utilizar marfim! De um lado, a “queixosa” indignada, no seu alemão desenrascado, por ter sido a única multada entre tantas mulheres com marfim verdadeiro; do outro, a professora chocada com o desrespeito pelos animais o que, no fim da história, valeu uma lição, útil diga-se, sobre a necessidade de proteger os animais.

Deutschkurs für ausländische Studenten, Uni Bonn

Há outros jovens apostam no ensino superior da Alemanha. Vêm sós, deixam a família no Iémen, na Líbia, na Coreia do Sul ou nos Camarões, por exemplo, para mergulharem no estudo do alemão durante um ano. Depois, deverão então estar aptos a ingressar na universidade, querem ser médicos, engenheiros, músicos… Ou até futebolistas.

Conheci um jovem australiano, de 18 anos, cujo sonho é tornar-se jogador profissional de futebol na Alemanha. Durante um torneio, ainda na Austrália, em que participou um pequeno clube de futebol alemão, surgiu o convite do treinador germânico. Aceitou. Deixou a família no continente longínquo, para viver no novo lar do treinador alemão e aprender futebol onde ele rei.

Entre os estrangeiros que vem para a Alemanha, chamam-me particularmente a atenção as “Au-pair Mädchen” ou “baby-sitters”. É surpreendente o número de raparigas que vêm de países tão inesperados como a Mongólia, Taiwan, Nigéria ou Geórgia para integrarem uma família alemã. Tomam conta dos filhotes, ajudam nas lides domésticas e praticam o alemão.

Fico surpreendida quando dou por mim ao lado de uma jovem de Taiwan, ilha que fica próxima da República Popular da China, que me fala muito bem alemão. Perante o elogio, ela explica-me que já aprende a língua há quatro anos na universidade taiwanesa! Pouco difundida em Portugal, a língua germânica é, contudo, procurada com entusiasmo por jovens em locais tão distantes e exóticos!

Além de país de trabalho, a Alemanha é um ponto de cruzamento de várias culturas. Nesta caldeirada, apesar de quase todos os estrangeiros se queixarem do tempo e da complexidade da língua, a verdade é que, para quem vem para ficar, estes não passam de essenciais ingredientes.

Chegou o Flohmarkt

Flohmarkt em Bona

Flohmarkt em Bona

Com a chegada da Primavera começou também a época do “Flohmarkt”, o mercado das pulgas, a feira da ladra ou mercado em segunda mão, como se queira chamar. Sendo uma tradição bastante popular, na Alemanha, o primeiro “Flohmarkt” do ano, após a longa pausa de Inverno, é bastante aguardado! Com o sol a convidar, centenas de pessoas percorriam já desde as nove horas da manhã, de sábado (20.04), as ruelas do Rheinaue, o parque verde da cidade de Bona, de olhos postos nas centenas de banquinhas.

Quem chega vem apetrechado, com o carrinho de compras (a atrancar quem passa!) ou mochila para poder carregar as pechinchas. No “Flohmarkt” pode encontrar-se praticamente de tudo! Vestuário, calçado, bijuteria, mobília, loiça, utensílios de cozinha, livros, discos vinil, CD’s, DVD’s, máquinas fotográficas e de escrever antigas, todo o tipo de brinquedos…! Normalmente, as peças estão bom estado, algumas parecem mesmo novas outras, contudo, parecem pálidas e de ar cansado e outras parecem ressuscitar os anos 80. São vendidas, regra geral, a preços bem apelativos, por exemplo, blusas a dois euros ou casacos a sete. Pelo que, poucas horas após do início da feira, começa a ver-se pessoas carregadinhas com as “novas” aquisições.

Flohmarkt em Bona

Flohmarkt em Bona

Roupas e brinquedos de crianças destacam-se em muitas bancas. Talvez porque a roupa de criança dura pouco tempo, com a pequenada a crescer rápido, as mães tentam vendê-la, libertando a Primavera nos armários entupidos de Inverno.

Mas é também curioso encontrar-se muitas crianças e adolescentes a venderem os seus brinquedos antigos. Como já não os usam, alugam um espaço no “Flohmarkt” para, assim, arrumarem a brincadeira velha e juntar algum dinheiro para, talvez, comprar nova!

No entanto, há também algumas coisas um pouco ridículas de se vender em segunda mão… No ranking das peças mais insólitas (de serem compradas usadas) conta-se por exemplo, roupa interior de homem e mulher, pinças, bonecas de porcelana ou raposas embalsamadas!

O sol pintou um Rheinaue preenchido, um formigueiro humano carregando velharia, levando para casa coisas já novas e reutilizáveis. Em Bona, o “Flohmarkt” acontece no terceiro sábado de cada mês, entre Abril e Outubro.

Mobília e vestuário pendurado na Primavera de Bona

Mobília e vestuário pendurado na Primavera de Bona

O reino da reciclagem

Embalagens, papeis ou lixo biológico, por exemplo… Cá em casa quase tudo se recicla. Tanto na nossa, como em quase todas. A reciclagem é um hábito entranhado no modo de vida alemão. Desrespeitá-lo não é bem visto e pode resultar em multas.

Facilmente se adopta o estilo e, logo em primeiro lugar, o de reciclar as garrafas de plástico e de vidro, pois faz diferença na carteira. No acto de compra, paga-se uma espécie de taxa, chamada “pfand”, sobre quase todas as garrafas de bebidas (25 cêntimos para as de plástico, 8 cêntimos para as de vidro e lata). Pelo que, o “pfand” pode custar mais do que uma garrafa de água, por exemplo. Ora se se multiplicar o “pfand” pelo número de garrafas que todos os meses se compra resulta num valor considerável que vale a pena recuperar!

O “pfand” só é recuperado quando a garrafa é devolvida. Quase todos os supermercados têm máquinas para recolher as garrafas que, em troca, dão um talão com o valor total do “pfand”, que pode ser convertido em dinheiro ou descontado em compras. Este método eficaz permite que grande parte das garrafas seja reutilizada.

Para algumas pessoas, acaba por tornar-se uma forma de ganhar algum dinheiro. É frequente ver-se pessoas, geralmente de poucos recursos, bisbilhotando os caixotes de lixo públicos à procura de garrafas para poderem assim somar uns trocos.

Contentores de lixo no exterior das casas

Contentores de lixo no exterior das casas

A reciclagem de embalagens é, de resto, obrigatória na Alemanha desde os anos 1990. Ao contrário do que existe em Portugal, por cá, não se vêem geralmente aqueles grandes contentores públicos, amarelos e azuis, para a recolha de plástico e papel, respectivamente.

Em vez disso, é obrigatório que cada prédio ou cada casa tenha, no exterior, os seus contentores para as embalagens, para o papel e para o lixo geral. A recolha não é feita diariamente. Em cada zona da cidade e a determinados dias passa um camião para recolher ora o papel ora o plástico ora o lixo geral.

Mas o lixo não pode ser colocado de qualquer maneira nesses contentores. É obrigatório que as embalagens e o lixo geral estejam fechados em sacos plásticos fechado e sempre dentro do contentor. Quem não cumprir pode vir a ter uma desagradável surpresa! Uma amiga foi deixar uma grande caixa de cartão desmontada ao contentor próximo de casa, e como estava completamente cheio, deixou-o do lado de fora tal como estavam muitos outros. Passado uns dias, recebeu uma carta em casa para se apresentar na polícia.

A “Polizei” descobriu os autores de tão ignóbil porque a caixa, que tinha chegado por correio, estava com o endereço escrito. Quando a autora chegou ao posto da polícia, além de ter sido reprimida pelo ilícito, viu que tinha sido aberto um processo onde constava uma fotografia com a “prova” do crime e que o delito se resolvia com uma multa de 15 euros!

Vidrão para as várias cores

Vidrão para as várias cores

O vidro é depositado em grandes contentores públicos, disponíveis em quase todas as ruas. E é desde logo triado, pois existem sempre três contentores para o vidro transparente, castanho e para o verde.

Além disso, muitos alemães que vivem em casas com jardim fazem a compostagem do lixo biológico: restos de alimentos não cozinhados, cascas, fruta apodrecida são depositados numa embalagem própria de papel que depois segue para a compostagem. Também cá em casa, como os senhorios fazem a compostagem, separamos o chamado “biomüll”.

E a reciclagem não se fica por aqui. Em nossa casa, como amigos do ambiente que são, os senhorios têm ainda um sistema para aproveitar as águas das chuvas. Pelo que, só ficam a faltar mesmo os painéis solares… mas com os dias de sol que temos, por ano, não deve compensar!

De acordo com um relatório da Comissão Europeia, a Alemanha é considerada um dos seis países mais eficientes no tratamento de lixo. Entre os 27 Estados membros da União Europeia (UE), a reciclagem é mais comum na Alemanha, que recicla 45% do lixo tratado, seguindo-se a Irlanda, com 37% e Bélgica com 36%, segundos últimos dados, de 2011, do Eurostat, o órgão de estatísticas da UE. Na Alemanha, apenas 1% do lixo tratado foi para aterros. Já em Portugal, no mesmo ano, apenas 12% do lixo tratado foi reciclado e 59% foi para aterros.

Em termos gerais, cada alemão produziu, em 2011, uma média de 597 quilogramas de lixo urbano, em 2011; e cada português foi responsável por 487 quilogramas.

Odisseia para quem chega a Bona

Poderei apelidar de odisseia: um carrossel de peripécias, quase anedóticas, que muitas vezes dão tanta vontade de rir como de entrar em desespero. Procurar alojamento na Alemanha, ou pelo menos em Bona, é assim, um capítulo imprevisível, improvável, inigualável até.

Com muitos estudantes estrangeiros e várias organizações alemãs e internacionais, a cidade dá a impressão, a quem procura um tecto, que tem mais pessoas que imóveis. Por isso, a tarefa de alugar casa ou quarto é, normalmente, cansativa, difícil, por vezes stressante, pelo que é preciso uma pitada de sorte para se conseguir um bom espaço.

Felizmente a minha dose de sorte chegou generosa. Sem necessidade de entrevista, sem mesmo ter visto previamente a casa ou os senhorios, consegui alugar uma modesta e aconchegante habitação, onde me sinto bem. Mas nem sempre é assim tão simples.

casa

Na Alemanha, muitas pessoas optam por morar em habitações partilhadas, chamadas “Wohngemeinschaft” (ou na abreviatura WG). São uma espécie “repúblicas”, onde várias pessoas, mesmo depois de frequentarem a Universidade, vivem em comunidade, partilhando contas e o mesmo tecto. É o tipo de acomodação mais barato e, por isso, muito procurado.

Quando as WG têm quartos livres, surgem anúncio na internet, com fotos e descrição. Os interessados enviam um email, para depois serem chamados para uma entrevista. Com a entrevista, os moradores da habitação pretendem conhecer um pouco melhor os candidatos ao quarto e seleccionar quem considerarem mais adequado. Ao mesmo tempo, o candidato tem a oportunidade de conhecer o espaço. E é principalmente nesta fase, da procura de casa, que surgem as histórias mais hilariantes.

Muitas delas conheci bem de perto. Na casa onde vivo, tive a oportunidade de receber, em diferentes momentos, duas colegas. Ficaram temporariamente enquanto procuravam casa definitiva. Essa procura demorou, a cada uma delas, quase um mês.

Vamos começar por M. Viu uma WG de raparigas, uma casa lindíssima, numa zona agradável da cidade e foi para a entrevista cheia de expectativas. Voltou desiludida. Não fora preciso ouvir o “não” para perceber que não seria aceite. Seis meses era pouco tempo para alugar, justificaram as raparigas da casa (apesar de saberem, previamente, que seria por esse período). Adoptando uma postura arrogante, entrevistaram M. transmitindo, entre linhas, que não dispunha do perfil esperado.

Dias depois, M. foi ver uma outra casa, esta perto do seu local de trabalho. Na verdade, mal a conseguiu ver, tantas eram as caixas de cartão, empilhadas umas sobre as outras, em todos os compartimentos! Assim que percebeu que era suposto partilhar aquele espaço encaixotado com um homem, desolado, de coração partido pela separação da namorada, saiu… com a certeza de que casa de cartão e de males de amor não seria para si!

M. viu outra casa interessante na internet. O senhorio, homem maduro, vincado por manias mesquinhas, fazia questão de ir buscar M. ao local de trabalho para lhe mostrar a casa. Queria evitar assim a possibilidade de um maldito minuto de atraso, na sua preenchida agenda de reformado. Para mal dos seus pecados, M., que não aceitou a boleia, chegou mesmo uns minutos atrasada! Esbaforido, o senhorio não disse que já não poderia levar M. a ver a casa, mas em vez disso levou-a à sua casa para ver fotografias na internet… como se M. já não as tivesse visto, precisamente na internet. Apesar de farta da impaciência do senhorio, M. não deu por mal empregue a ida a casa do stressado homem: ainda hoje comenta a foto que viu na sua casa, nada mais nada menos que o próprio cumprimentando Barack Obama!

Já a entrar em desespero, M. encontrou um quarto para ficar e assinou contrato. Mas graças a um desentendimento, à última da hora, M. acabou por não se mudar. Digo graças, porque a sua vida naquela casa, iria ser complicada… A senhoria, toda ela, eram regras até de socialização. Enviou, previamente, uma lista de regras de conduta, até de socialização. Queria obrigar todos os moradores da casa, onde a própria vivia, a conviver, só assim se compreende um dos artigos das suas leis: a cada fim-de-semana de manhã, todos deveria tomar juntos o pequeno-almoço e aquele que faltasse à chamada seria incumbido de fazer um jantar aos restantes. Além desta gostei particularmente de uma outra regra: diz a senhora que, depois de se tomar banho, não se deve molhar o chão, e para que todos o consigam fazer aconselha a que limpem os pés ao sair do chuveiro!

casa2

Outras casas houve em que M. se deparou com quartos sem mobília, a preços exorbitantes, ou disponíveis em datas incompatíveis… até encontrar um quarto numa casa onde moravam vários alemães. O anterior inquilino deixou-lhe a mobília. As pessoas partilhavam a casa, as regras, mas não a vida e o dia-a-dia. E as regras da vida em comunidade vão, por vezes, a pormenores cómicos: a certa altura, prevendo-se gripes e a maior necessidade de se limpar o nariz, foi recomendado que cada um utilizasse apenas os seus lenços de papel, de forma a não se gastar tanto papel higiénico, que é comprado por todos (inclusive pelos que não estavam constipados!).

Este ano, M. parecia ver o filme repetir-se nas descrições de F., ao final do dia, depois de mais uma etapa na procura de alojamento. Por coincidência, foi também ver uma casa do mesmo senhorio, de meia idade e feitio repulsivo. Invadindo a casa sem prévio aviso, onde já morava uma outra rapariga asiática, o homem mostrou o quarto disponível, muito rapidamente, pois estava com pressa para ir ao supermercado!

Pela expressão de F., o senhorio percebeu que o quarto não acolhia agrado da jovem e disse algo como: eu até tenho outro quarto para alugar e posso mostrar, mas é mais caro. E olhando para a sua cara, pode-se ver claramente que não tem dinheiro para o pagar!

Desistindo do irremediável mau feitio e do quarto, F. continuou a busca. Visitou uma casa que parecia habitada por imigrantes clandestinos, tal era a cara de medo e estranheza com que os moradores, quase encolhidos,  observavam a estranha invasora.

Depois, F. foi ver a casa de um “artista”, conforme o próprio se apelidava. Com os seus 50 anos, o “artista”, que vivia com a sua namorada ucraniana com metade da idade, alugava nada mais que a dispensa da casa: um espaço minúsculo, ao lado na cozinha, sem janela.

De tão insólitas, as histórias chegam a ser cómicas, para quem as escuta, mas desmotivadoras, por vezes, para quem procura casa! Mas quem procura, acha! E hoje, M. partilha comigo a mesma casa. E F. encontrou um quarto confortável, acolhedor e simpático, em casa de gente amiga, no centro da cidade. Tudo está bem quando acaba bem.

Dia da Rádio

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A rádio anuncia, a televisão mostra, o jornal explica. Era assim que, em poucos rabiscos, eram resumidos e segmentados os três tradicionais meios de comunicação social, nas aulas de jornalismo. Com a chegada e com a proliferação da internet, anunciou-se o fim da imprensa em papel, da rádio e a transformação revolucionária da televisão.

Ao invés de ameaça, a internet assumiu-me como ferramenta poderosa para conceber novos conteúdos, alterar a forma de produzi-los, facilitar a interacção com o público, enfim transformar ao invés de arrasar.

Há poucos anos atrás, pensava em poder um dia trabalhar em imprensa, gostaria de experimentar uma redação de um canal de televisão e quase descartava a hipótese da rádio e da internet. As vozes radiofónicas que soavam das emissoras e um mundo pintado da cor dos sons afiguravam-me a rádio como inacessível. E o “copy past” faziam-me alergia ao meio online.

Mas de súbito e quase sem querer, o meu trabalho tornou-se rádio: palavras, sons, atmosferas de África. Devido ao elevado analfabetismo e à ainda baixa difusão da internet, a rádio assume o papel informativo por excelência. A rádio é ouvida por cerca de 95% dos habitantes do planeta, segundo o chefe do Sector de Comunicação e Informação da UNESCO (a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura).

As imagens desenhadas pelo som, os retratos pintados aos microfones, o cheiro de um continente difundido por ondas hertzianas ensinaram-me um novo jornalismo e trazem-se o contacto próximo com ouvintes distantes, facilitado através da internet, que caminha lado a lado com o velhinho média.

Hoje celebra-se a rádio. O Dia Mundial da Rádio, intitulado pela UNESCO, em 2011, comemora-se a 13 de Fevereiro: foi neste dia, em 1946, que a rádio das Nações Unidas começou a transmitir.