Alster

Hamburgo
O Alster é um pequeno rio, que aflui no grande Elba, mas são as suas águas que bombeiam o coração de Hamburgo. Com uma área de 160 hectares e cerca de 7 km de perímetro, o lago do Alster é um dos locais de referência no centro da cidade. É certamente um dos sítios preferidos e mais frequentados durante a Primavera e Verão, mas mesmo nesta altura de queda da folha vê-se sempre movimento tanto no lago como no amplo espaço verde à volta.

O Alstersee é também já o meu lugar preferido para dar as minhas corridas. Principalmente aos fins de semana, cruzo-me com outras pessoas a caminhar, corredores de todas as idades, mais ou menos experientes, há quem prefira passear com as crianças ou brincar com os cães. Como os alemães são normalmente pessoas práticas preferem fazer tudo de uma vez só: correr e passear a criança, empurrando o carrinho do bebé, ou andar de bicicleta e passear o cão que corre ao lado, ao mesmo ritmo, preso pela trela, por exemplo.

Percorrendo as margens do lago, tento recalcar o cansaço relegando-o para segundo plano, apreciando casas nobres, elegantes e outras mais modernas que se erguem altivas, sigo os barcos à vela, a remos e as canoas que desatam da margem e deslizam de um lado a outro, saboreando o sol de Outono. Por vezes no Inverno, o lago congela e transforma-se numa pista para patins, trenós e brincadeiras.

Volta completa, tarefa comprida, só mais uma pequena corrida até casa. Quanto ao Alster, depois do lago, as suas águas unem-se às do Elba que desagua no Mar do Norte.

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Voltar a estudar

Depois de três anos de trabalho na Alemanha e de outros três em Portugal, este era o momento para voltar a pegar nos livros. O início de um mestrado foi o motivo que me trouxe de armas e bagagens para Hamburgo. Continuo ligada à DW, mas agora a minha ocupação principal voltou a ser a de estudante!

E é tão bom voltar à “escola”! Sempre tive o desejo de ter experiência profissional e académica fora de Portugal e, portanto, a entrada na Universidade de Hamburgo é o início da realização de um objectivo.

Depois de algum tempo de trabalho, penso que se volta aos estudos com mais maturidade, responsabilidade e vontade de agarrar o conhecimento. Sente-se que esta é uma oportunidade única, de fazer uma pausa no trabalho – onde passamos a maior parte do tempo – para voltar a aprender com professores, pessoas experientes, livros especializados, para voltar ao stress de entregar trabalhos e estudar para as provas!

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Eu sempre defendi a ideia que era preciso ter alguma experiência e tempo de maturação, depois da licenciatura, para escolher uma área de estudo num mestrado. A verdade é que acho que comigo nada mudou, não consegui deixar de me entusiasmar pelas áreas de resolução de conflitos, paz, relações internacionais. E os últimos anos só vieram confirmar que era para essa área que me queria redireccionar.

Estudar num outro país acarreta alguns desafios, desde logo a língua – a minha eterna batalha –, e o sistema de ensino que funciona de forma um pouco diferente ao que estava habituada.

Aprender alemão é um trabalho incessante e tanto causa, por vezes, uma imensa frustração como também a alegria de uma vitória sempre que se sente uma evolução. Ainda que o mestrado seja em alemão e em inglês, a maioria dos professores prefere dar aulas em alemão, o que exige o triplo do meu esforço de concentração – que nem sempre resulta. As aulas em inglês parecem música para os meus ouvidos, tudo se torna mais leve e fácil de compreender. Depois de ter trabalhado estes últimos anos sempre em português, agora com esta nova misturada de alemão e inglês dou por mim a começar frases numa língua e a terminar na outra, a esquecer-me de palavras simples em inglês que me surgem de imediato na mente em alemão… Todo um processo de adaptação que eu espero que seja breve!

Ao longo dos próximos tempos, vou portanto partilhar textos sobre a cidade de Hamburgo, considerada por muitas pessoas como das mais bonitas da Alemanha (e eu subscrevo), curiosidades e certamente também algumas banalidades sobre a vida de uma estudante.

Gostava que este fosse também um espaço de diálogo e, portanto, qualquer dúvida ou tema que gostassem de saber ou ver abordado neste blog deixem simplesmente um comentário e eu tentarei corresponder!

De armas e bagagens para Hamburgo

Cheguei à Alemanha com uma mala de porão de 23 kg e uma bagagem de mão. A minha vida empacotada, em Janeiro de 2011, para um estágio de seis meses.

Quando me mudei para Hamburgo, a 30 de setembro último, não havia afinal mala onde coubesse o que tinha acumulado durante os últimos três anos em Bonn. Eu, que não me tenho por pessoa consumista, não queria acreditar como a carrinha estava carregada na hora de partir. Os seis meses de estágio passaram afinal a mais de três anos de trabalho em Bonn, na DW, e a uma multiplicação dentro dos armários e gavetas da casa!

Mudança

Apesar de ter deixado tudo encaixotado previamente, a manhã de dia 30 de setembro voou e carregar a carrinha alugada levou mais tempo do que esperava: bicicletas a um canto, caixa atrás de caixa, mochila, sacos… Seguiram-se mais de 400 km em direção a norte com o Gilberto ao volante – porque eu não me atreveria a tal empreitada! Quando chegámos a Hamburgo já anoitecia, começava a chuviscar e, para piorar, o elevador estava avariado! Era preciso pegar em tudo, mais uma vez, e subir até ao quarto andar. E afinal como conseguir arrumar a tralha toda num quarto de 8.5 metros quadrados?

Trazer as caixas todas de uma vez era impossível – simplesmente não cabíamos nós e as caixas ao mesmo tempo! Teve de ser aos poucos, um par de caixas numa rodada, limpar e arrumar como era possível, e voltar a carregar… parecia que nunca mais acabava e já sentia câimbras nos braços! Depois de muito sobe e desce, afinal acabou por caber tudo arrumadinho! Estávamos exaustos!

Já tarde, finalmente o descanso. Mas nem por isso me sentia menos relaxada… na manhã seguinte começava o primeiro dia de uma nova etapa – afinal o motivo que me trouxe para Hamburgo!

Histórias de Bonn… agora a partir de Hamburgo

Durante mais de um ano, eu própria não consegui voltar a visitar este espaço. Ao longo deste tempo, senti sempre um aperto e um peso de consciência ao pensar que tinha deixado em suspenso, quase de repente e sem explicação, as palavras que preenchem este meu caderno. A falta de tempo, de vontade, de ideias deixou este espaço, talvez por demasiado tempo, vazio.

Entretanto começa uma nova etapa e, com ela, surgirão certamente novas histórias para voltar a partilhar… a partir de Hamburgo. Até já!

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Um país de trancas à porta

O mundo assiste diariamente a notícias de conflito e morte na Síria, expectante sobre uma possível intervenção militar do Ocidente, liderada pelos Estados Unidos. Entre Palestina e Israel, os diários desentendimentos e conflitos há muito que deixaram de ser notícia. Em destaque está, neste momento, que as duas partes estão dispostas a prosseguir negociações, agora se isso conduzirá a tréguas é que já é outro assunto. Mais a sul, neste conturbado Médio Oriente, a Península de Sinai, no Egito é também, com alguma regularidade, palco de notícias bélicas.

Neste emaranhado complexo, não admira que em Israel se viva uma paz tensa. Volta e meia, aviões e helicópteros militares riscam o céu azul da terra prometida e a toda a hora se vêem jovens militares armados em qualquer lugar.

Protagonista de uma história de perseguições, ao longo dos séculos, o povo judeu parece que vive numa casa de janelas abertas e ao mesmo tempo de trancas à porta. Sente-se a tensão diária com os países vizinhos e portanto a segurança é uma preocupação primordial.

Pelo que, o carácter militar de Israel é surpreendente. Sendo o serviço militar obrigatório para rapazes (três anos) e para raparigas (dois anos), ver um militar é tão frequente quanto ver um rabino com o seu uniforme tradicional; e estar armado é tão natural quanto ler os textos sagrados do Velho Testamento junto ao Muro das Lamentações. Os israelitas preservam muito o sentido de segurança, pelo que quem, por algum motivo, não faz o serviço militar é olhado de soslaio e no futuro terá certamente problemas em conseguir um emprego.

Militares em Jerusalém

Militares em Jerusalém. Foto: Gilberto Fontes

Todos os dias, nos momentos mais diversos e rotineiros se sente a presença de forças de segurança. Por exemplo, na entrada de espaços públicos, como num centro comercial, as pessoas têm sempre que passar num detector de metais e facilitar a fiscalização das bolsas ou outros pertences. Em viagens de autocarro, passando para território palestiniano e mesmo dentro de espaço israelita, são frequentes os “check points” ou pontos de controlo, nos quais o autocarro pára para que jovens militares armados entrem e verifiquem se está tudo nos conformes. Sendo tão vulgar, os militares parecem encarar a posição que ocupam com muita naturalidade, carregam armas como se fossem as do Carnaval e as raparigas claro, como em qualquer parte do mundo, gostam de recriar um toque feminino, trocando as botas grossas pelas sandálias ou optando pelo penteado de cabeleireiro em vez do cabelo apanhado.

Os israelitas são pessoas atentas, conhecedoras da sua história e religião e, portanto, por vezes também desconfiadas. Notou-se isso, por exemplo, em Jerusalém, quando perguntamos a uma jovem militar a que ramo das forças armadas pertencia, tendo em conta a cor da farda e da boina. A pergunta não foi bem recebida e suscitou o olhar desconfiado de um homem que, ao lado, escutava atendo. Não se contentando com a aparente simples curiosidade de um turista sobre o fardamento militar, disparou uma série de perguntas de modo hostil como se quisesse descobrir um espião dissimulado:  porque perguntas isso?; de onde vens?; que fazes aqui?; para que queres saber isso?; etc.
Claro que nem todas as pessoas são desconfiadas, a maioria tenta transmitir a imagem de um país em paz, contestando o preconceito de um Estado em permanente conflito com os seus vizinhos, veiculado pelos média.

Mas se a segurança já é apertada dentro do próprio país, para entrar e sair de Israel, o caso é ainda mais complicado. Inclusive o embarque para a viagem de regresso ficou por uma unha negra! Tal como todas as pessoas, fomos abordados por um funcionário de segurança no aeroporto que, com os nossos passaportes em mão, ia fazendo várias perguntas. Depois de uma série de questões, sobre a nossa vida pessoal, voltava junto do seu superior a quem fazia, suponho, um apanhado da situação. E regressava para mais uma série de perguntas: onde trabalha?; tem comprovativo de onde trabalha?; quando foi a última vez que se viram?; quando se tornarão a ver?; com que frequência se vêem?; etc etc.

Depois da terceira ronda de questões, chegou a vez do chefe de segurança fazer a prova dos nove. Voltou a repetiu perguntas, noutra ordem. Passámos no teste. E só depois de tudo ok, desatamos a correr! Entretanto o gabinete de “check in” estava a fechar e fomos as últimas pessoas a embarcar. Houve inclusive quem perdesse o vôo por causa dos procedimentos de segurança. Depois do susto, abri a mochila. Vi a garrafinha de água – enquanto em muitos aeroportos, os funcionários de segurança implicam com as garrafas de água e líquidos com mais de 100 ml, em Tel Aviv esse não foi o problema. Pareceu mais complicado explicar que duas pessoas foram passar férias juntas apesar de viverem em países diferentes.

Este tipo de problemas não é exclusivo de Israel, os países que consideram o Estado israelita como inimigo não recebem com bons olhos pessoas cujo passaporte já passou naquele país. Para evitar futuros problemas, muitas vezes Israel concede um visto num papelinho que fica à parte do passaporte. Assim, para o futuro é como se nunca tivesse estado em Israel.

A caixinha mágica

Já passou algum tempo desde a última vez em que decidi traduzir em palavras uma parte do que corre cá dentro. Por falta de tempo, de imaginação ou de vontade fiz uma longa pausa. Durante este tempo, o mundo continuou a girar entre surpresas e desilusões.

Por exemplo e fazendo um paralelo com o anterior texto, soube-se hoje que Nelson Mandela foi enviado para casa. Até neste momento de doença e velhice o ex-Presidente da África do Sul se mostra forte e resistente, traindo os média internacionais que se posicionavam como abutres. Incrível como um homem de 95 anos que viveu uma vida plena, de convicção dedicação e sofrimento, que esteve preso mais de 20 anos, detenção que lhe valeu problemas respiratórios até hoje, resiste! Mandela é realmente uma personalidade forte e única.

Mapa da ARD - Agrupa as emissoras regionais de rádio e televisão da Alemanha

Mapa da ARD – Agrupa as emissoras regionais de rádio e televisão da Alemanha

Acompanhei esta notícia pela televisão. É importante este pormenor, sim, pois há mais de dois anos a chamada “caixinha mágica” (que há muito tempo deixou de ser caixinha) não fazia parte da minha vida. Desde que vim para a Alemanha, em Janeiro de 2011, praticamente não tinha acesso à televisão. Durante muito tempo vivi bem sem ela, sem saudades dos mil intervalos de publicidade, das novelas ou dos filmes que aqui são dobrados.

Mas a partir de determinada altura começou a deixar de fazer sentido. Ouvia pouca rádio e lia ainda menos jornais alemães, pois pouco era capaz de entender, pelo que me restava acompanhar as notícias pela internet. No entanto, houve alturas em que a minha família me contava, a partir de Portugal, coisas que se passavam na Alemanha e que me passavam ao lado. Além de me sentir desinformada, como jornalista, sentia-me (ainda) mais desintegrada, sem saber muito do que se passa na sociedade que me acolhe.

A televisão passou a ser um luxo que eu queria adquirir. Mais do que um entretenimento, a televisão parece-me uma ferramenta importante para aprender alemão, numa linguagem mais fácil que a dos jornais e reforçada pelo poder das imagens. Há uma semana voltei a ouvir os sons e a ver as imagens do que se passa no mundo, a publicidade que não conheço. Apesar do “lixo” que passa em qualquer televisão, parece-me, neste momento, uma ferramenta de integração e de aprendizagem. É um auxiliar para me ambientar numa língua que ainda me é estranha, de ver como se faz televisão noutro país, de saber qual é o acontecimento do momento, do que é que se fala e como se faz a abordagem, principalmente agora que a Alemanha se prepara para eleições parlamentares a 22 de Setembro. Claro que há sempre a tendência de mudar para o mais fácil, mudar para a CNN e ouvir inglês. Mas cá em casa tentamos, às vezes, não fazer essa batota!

P.S. Um obrigada ao Carlos Martins!

Crónica de morte anunciada

O mundo aguarda notícias de Nelson Mandela. As piores.

Internado desde o dia 8 de Junho, o ex-presidente da África do Sul encontra-se em estado crítico. É a quinta vez que é internado, desde Dezembro, e muitos acreditam que é a última.

Meios de comunicação internacionais acamparam no exterior do hospital de Pretória, famintos de qualquer notícia sobre o estado de saúde de Mandela, reportando também sobre as centenas de sul-africanos que se têm deslocado lá para rezarem e homenagearem o seu líder.

Família de Mandela junto ao hospital de Pretória

Família de Mandela junto ao hospital de Pretória, seguida pelos média

O apetite voraz dos gulosos média é um desrespeito para com Nelson Mandela, debilitado aos 94 anos de uma vida nobre e de sofrimento. Tendo dedicado a sua vida à luta por um país mais justo e igualitário entre negros e brancos, “Madiba”, como é carinhosamente chamado, merece respeito, serenidade e privacidade, neste momento de sofrimento.

No entanto, tal como disse a filha mais velha do primeiro chefe de Estado negro da África do Sul, Makaziwe Mandela, os média parecem “abutres” à espera da morte. Aguardam ansiosamente o anúncio do fim para lançar as manchetes, há muito preparadas, e para lançar as compilações arquivadas sobre a vida de Mandela.

Assistimos à crónica de uma morte anunciada, sem o mínimo respeito pela privacidade de “Madiba”, ícone da África do Sul e do continente, e da sua família.

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Nelson Mandela, o primeiro Presidente negro da África do Sul

As próprias autoridades sul-africanas contribuem os abusos absurdos a que assistimos diariamente. Sabe-se que preparam as cerimónias protocolares, fazem os últimos ajustes de agenda e nas infraestruturas, premeditando, com toda a pompa e circunstância, a despedida do homem que lutou por uma nação “arco-íris”.

No entanto, muitos podres vêm mesmo do círculo interno de Mandela. Circula a informação de que um neto de Mandela, que dirige uma estação de televisão, tem há anos a exclusividade dos direitos de transmissão do funeral. E duas filhas do ex-presidente da África do Sul travam na justiça uma batalha para conseguirem o controle de uma parte do património do pai que, alegadamente, não as queria como gestoras dos seus fundos.

Nelson Mandela tem padecido de problemas respiratórios, em grande parte devido à tuberculose que contraiu durante os mais de 27 anos em que teve preso. Mandela destacou-se na luta heróica contra o regime de segregação racial, apartheid, que vigorou na África do Sul entre 1948 e 1994. Foi o primeiro Presidente negro da África do Sul, entre 1994 e 1999. O “ideal de uma sociedade livre e democrática na qual as pessoas vivam juntas em harmonia e com oportunidades iguais”, para brancos e negros, valeu a Nelson Mandela o Prémio Nobel da Paz, em 1993, e, para sempre, o reconhecimento e o carinho do mundo.